
Volto no tempo e encontro uma criança de 5 anos e meio, sentada num quarto com duas camas de solteiro. É um quarto de meninas dá para perceber: bonecas, panelinhas, colchas nas camas feitas de crochê - e no canto sentadinha no chão a garotinha magra, comprida, com um lenço de cor vinho e estampas negras amarrado na cabeça, somente por uma ponta deixando todo o cumprimento do pano cair sobre as costas.
Aquela menininha, careca, retraída e falando sozinha - ou melhor: com seus amigos imaginários, se chama Raquel Cecília. Reconheço a pinta acima dos lábios no lado direito do rosto, reconheço a falta de todos os dentes superiores bem na frente da arcada, reconheço aquela criança branca e pálida, usando a imaginação para se sentir completa e reconfortada. O lenço para ela, são seus cabelos perdidos, e o quarto é um lugar longe dali em outra realidade.
A casinha de 2 cômodos transformados em 3 com uma divisória para separar a sala da cama de casal, a cozinha que não tinha armário mas sim prateleiras na parede, e no quintal pequeno o corrimão da escada que levava para a rua, era feito de escorregador quando havia ânimo para brincar.

Eu me aproximo da garotinha absorta em sua imaginação, em seu auto-afago, me abaixo de forma a olhar em seus olhos castanhos claros - reparo que já não havia mais sobrancelhas também - e lhe entrego a carta, dizendo que está tudo bem, eu só era mais uma amiga que veio lhe contar uma história de força, coragem e superação. Logo, logo ela aprenderia a ler, e então poderia compreender o segredo que aquela carta lhe revelaria.
A garotinha pega a carta, um pouco assustada pois suas amizades especiais, que ninguém além dela conseguia enxergar, nunca pareceram tão reais.
Pouco tempo se passa, e a vida da garotinha começa a passar por uma revira-volta, e quando ela aprende a ler, percebe que parte do que a carta lhe conta já havia acontecido, mas ainda tinha muito por vir.
Fica contente em saber que seus cabelos nascerão novamente, que terá sobrancelhas e os dentes logo crescerão de novo, assim ela não será mais humilhada nem agredida na escola.
Ela entende, que a separação dos pais que aconteceu há poucos meses, foi melhor para eles, e como ela os ama: prefere que seja assim.
Ela compreende que por mais dura que a vida seja, sempre haverão mudanças que serão boas para nós, e que aprendemos a cada passo a perdoar, esquecer, e a pedir perdão.
E o que a garotinha gosta de saber: que no futuro, terá amigos que são de carne e osso, e que seu sonho de ter um gatinho não só se tornará realidade, como virá em dobro.
A garotinha guarda a carta com carinho, aonde ninguém encontrará, deita sua cabeça no travesseiro depois de um dia inteiro de tarefas, estudos e nenhuma diversão, devido ao modo de criação de seu "novo pai", pensando:
"Quando eu for adulta, minha mãe e meu pai ainda estarão vivos, e eu terei irmãos caçulas que amarei mais que a mim mesma. Como eu serei afortunada e feliz!"
Todos nós temos de viver determinadas situações, superar obstáculos, conhecer e perder pessoas ao longo de nossa trajetória. Faz parte da lei da vida, faz parte dos planos de Deus e da evolução do espírito.
Apesar de ter tido uma vida dura, uma infância quase nula, não mudaria nada mas aprenderia o máximo que pudesse, como tento fazer hoje.
Com 26 anos, já vivi muitas coisas, já me diverti e chorei, me apaixonei e me desiludi, admirei pessoas e me desapontei com elas... E o mais importante: aprendi a valoriza-las.
Mesmo assim, fico imaginando: o que me aguarda pela frente?
O que a Raquel de 50 anos de idade, me contaria em sua carta hoje?

Este post faz parte da blogagem coletiva promovida pela
Elaine, em comemoração ao aniversário de seu blog "
Um Pouco de Mim".